23 de out de 2009

Chuva, letramento e chapinha

A chuva caía fina, porém ainda era preciso atravessar a rua e caminhar uns 30m para chegar ao auditório. Participaria de uma mesa-redonda para discutir O uso da oralidade como prática de letramento, mas estava dispersa e sem inspiração alguma aquele dia, "quem quer saber de estudos de oralidade num país em que as pessoas precisam de dentes, meu deus?!". Pensou em comprar um paraguas - desde que aprendera que "paraguas" era a palavra em espanhol para "guarda-chuva", decidiu substituir, definitivamente, esta por aquela -, mas não se vendem paraguas nos supermercados. Acabara de pintar e picotar os cabelos, "quanto mais picotados, mais aparecerão os cachos" - dizia Leandra, a hairstylist. Além disso, sobre a tinta fresca havia gel, mousse, pomade, e sabe-se lá que outras barbaridades ela havia passado ali. Resolveu, então, que um saquinho plástico serviria bem para cobrir-lhe a cabeça durante o curto percurso que ligava o supermercado ao auditório, mas quando chegou ao caixa, constatou que todas as sacolinhas eram verdes, de um verde-limão fosforescente como nunca havia visto antes.
Enquanto pensava no ridículo de cruzar a rua com um saco verde-limão-fosforescente na cabeça ("poluem menos por serem verdes, cacete?!!"), organizava minuciosamente os cachos sob a sacolinha ("apenas um semáforo e mais 30 metros..."), torcendo para não encontrar nenhum outro palestrante no caminho.
No meio do cruzamento, uma desconhecida de capa-de-chuva-cor-de-rosa e cabelos impecavelmente lisos, olhou-a com cumplicidade e sorriu: "Cada coisa que a gente tem de fazer pra manter a chapinha, né"? Perto delas, outras 4 ou 5 moças lutavam para proteger (uma delas usava um livro aberto!) a "lisura" dos cabelos da água que caía enquanto esperavam para atravessar a rua.
Quando o semáforo abriu, sorriu para a moça e deu meia volta. Precisava jogar fora a fosforescência que, inadvertidamente, cobria-lhe os belos e recém-picotados cachos.

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