29 de jun. de 2009

Não é preciso saber mais nada...


De você sei quase nada
Pra onde vai ou porque veio
Nem mesmo sei
Qual é a parte da tua estrada
No meu caminho

Será um atalho
Ou um desvio
Um rio raso
Um passo em falso
Um prato fundo
Pra toda fome
Que há no mundo

Noite alta que revele
Um passeio pela pele
Dia claro madrugada
De nós dois não sei mais nada

De você sei quase nada
Pra onde vai ou porque veio
Nem mesmo sei

Qual é a parte da tua estrada
No meu caminho

Será um atalho
Ou um desvio
Um rio raso
Um passo em falso

Um prato fundo
Pra toda fome
Que há no mundo

Se tudo passa como se explica
O amor que fica nessa parada
Amor que chega sem dar aviso
Não é preciso saber mais nada

Quase nada - Zeca Baleiro e Alice Ruiz

(Para MJ, que foi pra Aruanda antes que o mundo compreendesse que cada um tem o direito de ter a cor que bem entende)

22 de jun. de 2009

Choram Marias e Clarices...


















Lançamento do Instituto Vladimir Herzog, dia 25/06, às 19h30, na Cinemateca (Lgo. Senador Raul Cardoso, 307, Vl. Clementino), com participação do Coral Luther King.

"A tarefa dos homens, a cada tempo, não é só preservar o passado, mas realizar as suas esperanças. Foi nesse famoso pilar, plantado pelo filósofo Walter Benjamin, que se inspiraram a família e os amigos de Vladimir Herzog para dar uma virada em três décadas de homenagens rotineiras e anunciar, para o dia 25 de junho, a criação do Instituto Vladimir Herzog. [...] O plano é criar um espaço físico em que se reúna a documentação - textos, fotos, filmes - para que seja usada por estudantes, principalmente", afirma Clarice, mulher do jornalista morto pela ditadura em 1975.
Leia a íntegra da matéria publicada no Estadão.

19 de jun. de 2009

Aniversário

Leve então
O resto desta ilusão
E todos os cuidados meus
Brinquedos dos caprichos

É pena porque foi tão lindo amar
Sentir você sonhar tão junto a mim,
Ouvir tanta promessa,
Fazer tanta esperança,
Pra hoje ver lembrança, tudo enfim

Não passou
De um triste desencanto, amor,
E desde então eu canto a dor
Que eu não soube chorar

(Desencanto, Chico Buarque)


Sob o sol de gêmos, numa segunda-feira de um mundo ainda em guerra, nasceram os olhos verdes mais desejados desse planeta. Como dizem lá numa comunidade de que eu faço parte no Orkut, "Esqueça Freud e Jung: Chico Buarque te entenderia!"

18 de jun. de 2009

Mais Mia Couto

E, a propósito de Mia Couto, na próxima 5ª feira, 25/06, às 19h, na Livraria Cultura da Av. Paulista, haverá um "encontro com o autor" para o lançamento do livro Antes de nascer o mundo.

Já na 6ª feira, 26/06, o moçambicano com sotaque de Guimarães estará no SESC Av. Paulista, das 18h às 20h, para um bate-papo (batepapo? bate papo?) com seus leitores - que deverão retirar ingresso com 1h de antecedência.

Eis o que aprendi nesses vales onde se afundam os poentes: afinal, tudo são luzes e a gente se acende é nos outros. A vida é um fogo, nós somos suas breves incandescências.

Fala de João Celestioso, ao regressar do outro lado da montanha (Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra. São Paulo: Cia.das Letras, 2003)

15 de jun. de 2009

O único intruso era o tempo

[...] Nesse mesmo pátio em que se estreava meu coração, tudo iria, afinal, acabar. Porque ele anunciou tudo nesse poente. Que a paixão dele desbrilhara. Sem nada mais, nem outra mulher havendo. Só isso: a murchidão do que, antes, florescia. Eu insisti, louca de tristeza. Não havia mesmo outra mulher? Não havia. O único intruso era o tempo, que nossa rotina deixara crescer e pesar. Ele se chegou e me beijou a testa. Como se faz a um filho, um beijo longe da boca. Meu peito era um rio lavado, escoado no estuário do choro.

Trecho do conto "A despedideira", de Mia Couto (In: O fio das missangas, Cia das Letras, 2009).

12 de jun. de 2009

É bonito, é bonito...


Nosso sonho
se perdeu no fio da vida
e eu vou-me embora,
sem mais feridas,
sem despedidas
eu quero ver o mar...
eu quero ver o mar...
eu quero ver o mar...
Se voltar desejos
Ou se eles foram mesmo
Lembre da nossa música
Música
Se lembrar dos tempos
Dos nossos momentos
Lembre da nossa música
Música...

eu quero ver o mar...

(Música - Liminha, Vanessa da Mata)

10 de jun. de 2009

Cananeia - estudo do meio

É assim: Cananeia agora não tem mais acento...


nem sol...

nem calor...

nem mormaço...

Só uma chuva que insiste em chover fina, fria, arrepiando os cabelos, molhando os sentidos, nublando as ideias já de acentos perdidos...

Sei....


"Os gatos são caçadores naturais; contudo, mesmo que você tente humaniza-lo, nunca conseguirá anular esse comportamento. Os gatos caseiros caçarão mesmo bem alimentados. Desde pequenos, os gatinhos já brincam como caçadores. Brinque sempre que possível com o seu gatinho. Se o seu gato chegar em casa com um rato ou um passarinho na boca, e o colocar a seus pés, significa que está contribuindo com os alimentos da casa. O melhor que você tem a fazer é aceitar. Se você o repreender, ele pensará que não foi satisfatório e deverá caçar novamente, tentando agradar-lhe". (http://www.webciencia.com/)

Esse é o Gandalf, meu gato gordo... às vezes dorme, às vezes come, às vezes descansa - porque a vida não é nada fácil...

8 de jun. de 2009

Tempo, tempo, tempo, tempo... és um dos deuses mais lindos

Certa feita, gostei muito de um moço. Quase me casei, é fato, mas, antes que isso acontecesse, olhei bem pra ele e vi que não daria certo. Eu já havia saído de um casamento que foi um naufrágio total e vi, nesse moço de quem gostava, defeitos muito parecidos com os que haviam me afastado do ex. Enfim....
Anos e anos se passaram e, semana passada, do nada, sonhei com ele. Nos encontrávamos numa espécie de repartição pública, ou banco... qualquer coisa assim. No início, eu disfarcei, mas ele me viu. Aí eu encarei e fui até lá falar com ele e foi um encontro muito legal, confesso, trocamos um looooongo abraço.
Quando acordei, não havia saudade, arrependiento, vontade de voltar o tempo, vontade de revê-lo, nada disso... ficou apenas a sensação boa daquele abraço que trocamos ali, na fila do banco.
O problema é que ele estava exatamente como era há 10 anos, quando nos vimos pela última vez, mas nesses dez anos eu envelheci, engordei, emagreci, engordei de novo, arranjei cabelos brancos que disfarço com tinta vermelha... enfim, mudei! e ele ali do mesmo jeitinho, que injustiça!
Mas passou.
Hoje recebi um recado de uma amiga pelo orkut e, quando fui responder, qual não foi a minha surpresa: havia uma foto da família dela e ele estava lá, eram muito amigos. Cliquei, não resisti. Não preciso dizer que quase chorei de tristeza... como ele envelheceu, meu deus... acho que uns 20 anos em 10, está mais magro, os olhos caídos, o cabelo branco, barba por fazer, nossa!!!!

Como o tempo foi bom comigo... e o destino também.

16 de mai. de 2009

Preguiça....


Mas um dia desses
Eu vou fugir de casa
E não volto, e não volto
Vou bater as asas,
Só vou levar comigo
O retrato do meu gato
Companheiro dessa minha melancolia...
E você me pede
Pra ter paciência
E juízo, e juízo
Mas o que eu gosto
É de andar na beira
Do abismo, abismo
Arriscando minha vida por um pouco de emoção
Eu e meu gato,
Ele na cama,
Eu no telhado,
Ele sem as botas e eu sem grana

(Eu e meu gato, Rita Lee)

Esse é o Neo, meu gato magro, às vezes lorde, às vezes estivador.

2 de mai. de 2009

Em extinção?

Amanhã é aniversário do meu pai e ele adora maxixe.
Resolvemos, então, fazer bacalhau com maxixe no almoço: era só passar na feira hoje de manhã e comprar o legume (fruto??) espinhento.
Quem disse?
Nada.
Em nenhuma barraca!
Mas ainda restava o sacolão.
Aqui perto de casa tem um ótimo, que tem de tudo,
até frutas estranhas como cajá-manga, marolo e abiu.
Necas...
Não se vende mais maxixe nesta terra.
E chicória, então, alguém sabe o que é?
Ora-pro-nobis, mostarda, taioba, couve-tronchuda, bertalha?
Imagine!
Fica aqui a pergunta que não quer calar: esses alimentos entraram em extinção
ou as pessoas passaram a comer, em casa, apenas as verduras e os legumes fast-food
- tipo cenoura, vagem, couve, beterraba -
que comem durante a semana nos quilinhos?

29 de abr. de 2009

Defesa de mestrado

Três longos anos e mais três longas horas: eis que tudo acabou. Sobrou a ressaca do texto que pretendia sobre aquele que consegui. Agora é ler Guimarães e todos os outros que me esperam na poeira desse tempo todo...

21 de abr. de 2009

Que horas são?

Terça feira, curto fim de feriado...

17 de abr. de 2009

Naquela estação

Sexta-feira, véspera imensa de feriado, signo de viajante.
A volta do trabalho, o cansaço dos últimos dias que mais parece de uma vida inteira - e o rádio do carro ainda sintonizado naquela estação. (E não é que essa canção é de Caetano?)
Gris tomando conta da tarde. É o céu que parte em busca de outro vento fingindo novos cheiros de chuvas.
"Não vai chover em São Paulo neste fim de semana", repete austera a meteorologista sem rosto. Pena... toda a chuva chovesse, não lavaria teu rastro embora.
E o rádio do carro - impassível ao arco-iris do caminho - sintoniza, insistente, aquela estação.

13 de abr. de 2009

Educação e tecnologias

Matéria publicada no UOL Educação que teve a contribuição desta blogueira. Obviamente, de todas as coisas legais que eu falei, a jornalista só publicou a frase de efeito...

Internet ainda é pouco usada em salas de aula do país

12 de abr. de 2009

Chocolate....

... e regime são duas coisas que não combinam. Definitivamente. Não dá pra encarar um regime com a cabeça erguida se no meio do caminho tinha uma páscoa, tinha uma páscoa no meio do caminho. E, venhamos e convenhamos, chocolate diet é uma merda.
A solução é meter mesmo o pé na jaca e amanhã encarar a esteira por uns 40 minutos pelo menos (além de dar um fim digno e urgente para aquela caixa de bombons maravilhosos que está esperando lá na geladeira ...)

9 de abr. de 2009

Desejos de Páscoa


Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
A vida não pára...

Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara...

Enquanto todo mundo
Espera a cura do mal
E a loucura finge
Que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência...

O mundo vai girando
Cada vez mais veloz
A gente espera do mundo
E o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência...

Será que é tempo
Que lhe falta prá perceber?
Será que temos esse tempo
Prá perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara...

Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não pára
A vida não pára não...
(Paciência, Lenine, Dudu Falcão)

25 de mar. de 2009

Fogo

Ante o nada,
hoje,
o eco das últimas sílabas
habita
involuntário,
insano,
o peito.
Fere amor com seu sarcasmo,
oculta amarga veia da saudade,
viola sentimentos, sentidos.
Desvãos.
O alimento em gotas do desejo
é o fogo denso,
vivo,
a queimar
(quase secreto)
no invisível
brilho dos teus olhos.

19 de mar. de 2009

Milênios de silêncio



Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar

E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos

Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização

Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você

(nada mais bonito do que Chico Buarque pra quebrar milênios de silêncios e soprá-los no ar)

8 de mar. de 2009

Nega

(Foto:Wonia Khalil)

Levantou cedo e perguntou pra patroa se a camisa da seleção estava limpa e passada. “Na gaveta!”, respondeu a nega. Não valia muito essa nega, mas de uma coisa não podia reclamar: a casa, a roupa e os meninos andavam sempre um brinco. Tá certo que de vez em quando tinha de levar uns sopapos pra aprender a obedecer. “Mulher tem que apanhar pra não sair da linha”.
Lá pela hora do almoço, os amigos apareceram. Companheiros de bar, de sinuca, de cerveja e TV em dia de jogo. A nega fez feijoada e serviu um caldinho de feijão pra abrir o apetite. Caipirinha e cerveja ‘a rodo’, pandeiro, timba, pagode: esse ano o Brasil seria campeão.
Depois do almoço, quase três da tarde, Galvão Bueno já dava a escalação: Juninho Pernambucano na armação no lugar de Ronaldinho, e o Gaúcho na frente no posto de Adriano. “Bom!”, diziam uns, “O Parreira tá louco!”, apostavam outros, “Que que é isso?”, gritava alguém lá do fundo. De repente, a nega soltou: “desse jeito, a gente acaba perdendo pra França!”. O tapão voou rápido, não deu nem pra correr. “Cala esse boca, sua nega vadia! Não vê que dá azar falar em perder tão perto do jogo começar?”. Ela virou as costas, o rosto vermelho, ardendo e praguejou baixinho: “pois tomara que perca mesmo!”. Ele ouviu. Tentou pular no pescoço dela, mas alguém segurou. “Some da minha frente, sua vagabunda! Se o Brasil perder eu te mato! Te mato, ouviu?” A nega sumiu no mundo. “Sossega” pra cá, “deixa disso” pra lá, começa o jogo.
Uma lástima. A seleção jogou mal, os franceses arrasaram. Zidane estava com o capeta no corpo, enquanto Ronaldo, Roberto Carlos e Cafu pareciam plantados no campo de tão duros que estavam. “É hoje que eu mato aquela nega!”, dizia ele. Daqui a pouco o gol da França. Henry. Silêncio geral. Depois, o jogo morno e os amigos tentando tirar a idéia de sua cabeça. “Deixa disso, homem, os caras tão jogando muito mal mesmo hoje, ela não teve culpa.”. Não adiantava. Ele estava furioso. No fim do jogo, cada qual com seu cada qual, um a um os amigos foram embora. Ele esperou a nega aparecer. Cochilou no sofá e nada dela.
Dormiu. Manhãzinha, antes das 5, ele já coando café, ela entra pelos fundos. “Desculpa, Zé, não falei por mal...” Ele não respondeu. Ela quis chegar junto, fazer um carinho e ele nada. “Vou preparar tua marmita. Preciso acordar as crianças, tá na hora de ir pra escola”. Nessa hora veio o soco. Forte. Certeiro no meio da boca. Sangrou. O dente da frente saiu vermelho na mão dela, caída que estava no chão da cozinha. “Tua sorte é que eu te amo, nega vagabunda. Dessa vez não vou te matar não, porque a culpa foi do Parreira que demorou muito pra botar o Robinho, mas da próxima...” A nega levantou, jogou o dente no lixo e, feliz da vida com o amor revelado, colocou mais um pedaço de lingüiça na feijoada do seu homem.

(Texto republicado em homenagem ao Dia Internacional da Mulher)