Três longos anos e mais três longas horas: eis que tudo acabou. Sobrou a ressaca do texto que pretendia sobre aquele que consegui. Agora é ler Guimarães e todos os outros que me esperam na poeira desse tempo todo...
29 de abr. de 2009
Defesa de mestrado
Três longos anos e mais três longas horas: eis que tudo acabou. Sobrou a ressaca do texto que pretendia sobre aquele que consegui. Agora é ler Guimarães e todos os outros que me esperam na poeira desse tempo todo...
21 de abr. de 2009
17 de abr. de 2009
Naquela estação
Sexta-feira, véspera imensa de feriado, signo de viajante. A volta do trabalho, o cansaço dos últimos dias que mais parece de uma vida inteira - e o rádio do carro ainda sintonizado naquela estação. (E não é que essa canção é de Caetano?)
Gris tomando conta da tarde. É o céu que parte em busca de outro vento fingindo novos cheiros de chuvas.
"Não vai chover em São Paulo neste fim de semana", repete austera a meteorologista sem rosto. Pena... toda a chuva chovesse, não lavaria teu rastro embora.
E o rádio do carro - impassível ao arco-iris do caminho - sintoniza, insistente, aquela estação.
13 de abr. de 2009
Educação e tecnologias
Matéria publicada no UOL Educação que teve a contribuição desta blogueira. Obviamente, de todas as coisas legais que eu falei, a jornalista só publicou a frase de efeito...
Internet ainda é pouco usada em salas de aula do país
Internet ainda é pouco usada em salas de aula do país
12 de abr. de 2009
Chocolate....
... e regime são duas coisas que não combinam. Definitivamente. Não dá pra encarar um regime com a cabeça erguida se no meio do caminho tinha uma páscoa, tinha uma páscoa no meio do caminho. E, venhamos e convenhamos, chocolate diet é uma merda.
A solução é meter mesmo o pé na jaca e amanhã encarar a esteira por uns 40 minutos pelo menos (além de dar um fim digno e urgente para aquela caixa de bombons maravilhosos que está esperando lá na geladeira ...)
A solução é meter mesmo o pé na jaca e amanhã encarar a esteira por uns 40 minutos pelo menos (além de dar um fim digno e urgente para aquela caixa de bombons maravilhosos que está esperando lá na geladeira ...)
9 de abr. de 2009
Desejos de Páscoa

Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
A vida não pára...
Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara...
Enquanto todo mundo
Espera a cura do mal
E a loucura finge
Que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência...
O mundo vai girando
Cada vez mais veloz
A gente espera do mundo
E o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência...
Será que é tempo
Que lhe falta prá perceber?
Será que temos esse tempo
Prá perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara...
Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não pára
A vida não pára não...
(Paciência, Lenine, Dudu Falcão)
25 de mar. de 2009
Fogo
Ante o nada,
hoje,
o eco das últimas sílabas
habita
involuntário,
insano,
o peito.
Fere amor com seu sarcasmo,
oculta amarga veia da saudade,
viola sentimentos, sentidos.
Desvãos.
O alimento em gotas do desejo
é o fogo denso,
vivo,
a queimar
(quase secreto)
no invisível
brilho dos teus olhos.
hoje,
o eco das últimas sílabas
habita
involuntário,
insano,
o peito.
Fere amor com seu sarcasmo,
oculta amarga veia da saudade,
viola sentimentos, sentidos.
Desvãos.
O alimento em gotas do desejo
é o fogo denso,
vivo,
a queimar
(quase secreto)
no invisível
brilho dos teus olhos.
19 de mar. de 2009
Milênios de silêncio

Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar
E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos
Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização
Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você
(nada mais bonito do que Chico Buarque pra quebrar milênios de silêncios e soprá-los no ar)
8 de mar. de 2009
Nega
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Levantou cedo e perguntou pra patroa se a camisa da seleção estava limpa e passada. “Na gaveta!”, respondeu a nega. Não valia muito essa nega, mas de uma coisa não podia reclamar: a casa, a roupa e os meninos andavam sempre um brinco. Tá certo que de vez em quando tinha de levar uns sopapos pra aprender a obedecer. “Mulher tem que apanhar pra não sair da linha”.
Lá pela hora do almoço, os amigos apareceram. Companheiros de bar, de sinuca, de cerveja e TV em dia de jogo. A nega fez feijoada e serviu um caldinho de feijão pra abrir o apetite. Caipirinha e cerveja ‘a rodo’, pandeiro, timba, pagode: esse ano o Brasil seria campeão.
Depois do almoço, quase três da tarde, Galvão Bueno já dava a escalação: Juninho Pernambucano na armação no lugar de Ronaldinho, e o Gaúcho na frente no posto de Adriano. “Bom!”, diziam uns, “O Parreira tá louco!”, apostavam outros, “Que que é isso?”, gritava alguém lá do fundo. De repente, a nega soltou: “desse jeito, a gente acaba perdendo pra França!”. O tapão voou rápido, não deu nem pra correr. “Cala esse boca, sua nega vadia! Não vê que dá azar falar em perder tão perto do jogo começar?”. Ela virou as costas, o rosto vermelho, ardendo e praguejou baixinho: “pois tomara que perca mesmo!”. Ele ouviu. Tentou pular no pescoço dela, mas alguém segurou. “Some da minha frente, sua vagabunda! Se o Brasil perder eu te mato! Te mato, ouviu?” A nega sumiu no mundo. “Sossega” pra cá, “deixa disso” pra lá, começa o jogo.
Uma lástima. A seleção jogou mal, os franceses arrasaram. Zidane estava com o capeta no corpo, enquanto Ronaldo, Roberto Carlos e Cafu pareciam plantados no campo de tão duros que estavam. “É hoje que eu mato aquela nega!”, dizia ele. Daqui a pouco o gol da França. Henry. Silêncio geral. Depois, o jogo morno e os amigos tentando tirar a idéia de sua cabeça. “Deixa disso, homem, os caras tão jogando muito mal mesmo hoje, ela não teve culpa.”. Não adiantava. Ele estava furioso. No fim do jogo, cada qual com seu cada qual, um a um os amigos foram embora. Ele esperou a nega aparecer. Cochilou no sofá e nada dela.
Dormiu. Manhãzinha, antes das 5, ele já coando café, ela entra pelos fundos. “Desculpa, Zé, não falei por mal...” Ele não respondeu. Ela quis chegar junto, fazer um carinho e ele nada. “Vou preparar tua marmita. Preciso acordar as crianças, tá na hora de ir pra escola”. Nessa hora veio o soco. Forte. Certeiro no meio da boca. Sangrou. O dente da frente saiu vermelho na mão dela, caída que estava no chão da cozinha. “Tua sorte é que eu te amo, nega vagabunda. Dessa vez não vou te matar não, porque a culpa foi do Parreira que demorou muito pra botar o Robinho, mas da próxima...” A nega levantou, jogou o dente no lixo e, feliz da vida com o amor revelado, colocou mais um pedaço de lingüiça na feijoada do seu homem.
(Texto republicado em homenagem ao Dia Internacional da Mulher)
Cães, muitos cães

Ando com vontade de ter um cachorro. Este fim de semana foi muito legal porque - apesar de termos chegado às 9h30 pra uma caminhada que começava às 8h, conhecemos o Marcelo, que é adestrador, e conversamos muuuuito com ele sobre cães, e raças, e dobermans burros, e chow-chows mordedores, e pastores alemães fabulosos, e cockers amarelos matadores. Quem se deu bem foram o Kevin e a Bebel, devidamente amassados e apertados, e o Beco e a Dora, que ganharam os melhores carinhos do mundo (mesmo sendo pela grade do portão).
25 de fev. de 2009
Praia e carnaval
Carnaval combina com praia. É verdade que também combina com mato, avião, estrada... O destino não importa muito, afinal são cinco dias pra sumir de São Paulo e cair no mundo, mas se for pra praia, melhor.
O problema de juntar praia e carnaval é um só: gente demais. Mas praia é lindo, tem aquele vento, a areia, o calor... AH, O CALOR!!! Pouca roupa, dois ventiladores soprando em cima de você a noite toda, o corpo tudo grudando... Aquela dificuldade doida pra dormir, os mosquitos picando seu pé e fazendo aquele barulhinho delicioso bem no seu ouvido... E pra completar, gente por todos os lados. Vizinhos com a TV ligada e a porta aberta, aquela falação às 6 da manhã, quando você finalmente consegue dormir
O problema de juntar praia e carnaval é um só: gente demais. Mas praia é lindo, tem aquele vento, a areia, o calor... AH, O CALOR!!! Pouca roupa, dois ventiladores soprando em cima de você a noite toda, o corpo tudo grudando... Aquela dificuldade doida pra dormir, os mosquitos picando seu pé e fazendo aquele barulhinho delicioso bem no seu ouvido... E pra completar, gente por todos os lados. Vizinhos com a TV ligada e a porta aberta, aquela falação às 6 da manhã, quando você finalmente consegue dormir
18 de fev. de 2009
Sdacxovecdsd
Adoro sapatos. Tenho uma verdadeira coleção da Side Walk, originária dos desejos de consumo de quem trabalhava em banco e só podia usar escarpin. O problema da Side Walk é que eles quase não têm sapatos pretos, é tudo muito marrom, vermelho... e eu estava muito a fim de uma sandália preta. Além disso, tudo lá é muito informal e, nos últimos tempos, tem me dado uma vontadinha de me vestir que nem menina de vez em quando... Aí eu o (a?)vi.
Estava no Shopping Ibirapuera, já subindo a escada rolante pra ir embora, quando olho pra uma vitrine. Desço de novo. Experimento? Experimento. No começo, fiquei meio relutante: era muito alto e eu queria uma sandália, só que ele era um sapato.
-- Que sapato, mãe, tá louca? Isso é sandália!
-- Como assim? Sandália é aberta e isso aqui é fechado, só tem essa aberturinha no bico.
-- Mas é sandália, mãe, sapato é fechado!!! Isso é um sdacxovecdsd!!!
-- Hein?
-- Sdacxovecdsd!!!
Ainda não sei muito bem se é sapato ou sandália. Pra dizer a verdade, não faço a menor ideia do nome do negócio. Só sei que é preto, lindo e alto, e eu estou me sentindo poderosíssima com meu sdacxovecdsd novo.
Estava no Shopping Ibirapuera, já subindo a escada rolante pra ir embora, quando olho pra uma vitrine. Desço de novo. Experimento? Experimento. No começo, fiquei meio relutante: era muito alto e eu queria uma sandália, só que ele era um sapato.
-- Que sapato, mãe, tá louca? Isso é sandália!
-- Como assim? Sandália é aberta e isso aqui é fechado, só tem essa aberturinha no bico.
-- Mas é sandália, mãe, sapato é fechado!!! Isso é um sdacxovecdsd!!!
-- Hein?
-- Sdacxovecdsd!!!
Ainda não sei muito bem se é sapato ou sandália. Pra dizer a verdade, não faço a menor ideia do nome do negócio. Só sei que é preto, lindo e alto, e eu estou me sentindo poderosíssima com meu sdacxovecdsd novo.
17 de fev. de 2009
Colo
O sol à beira da estrada
Poeira na contramão
O mato, o cheiro da terra e o chão
Azul molhado da tarde
A noite, a lua, a canção
Amor que chega e me abraça
Vou te levar aonde eu for
E o meu caminho leva onde o teu me disser
Vontade de deitar no colo
Eu nunca mais vou te deixar dormir
Reter cada momento, te seguir
O vento vem te roubar
O abraço, o nada, a razão
É noite fria no coração
Azul queimado da tarde
Saudade, fogo, paixão
Amor vai'mbora e me deixa
Vou te lembrar aonde eu for
Mas teu caminho é outro tempo que saberá,
Vontade de ficar mais tempo
E nunca mais querer te ver partir
O mundo te levou, eu deixo ir
(1995 - parceria com o Crica para a banda "Kin e os Serafins")
Poeira na contramão
O mato, o cheiro da terra e o chão
Azul molhado da tarde
A noite, a lua, a canção
Amor que chega e me abraça
Vou te levar aonde eu for
E o meu caminho leva onde o teu me disser
Vontade de deitar no colo
Eu nunca mais vou te deixar dormir
Reter cada momento, te seguir
O vento vem te roubar
O abraço, o nada, a razão
É noite fria no coração
Azul queimado da tarde
Saudade, fogo, paixão
Amor vai'mbora e me deixa
Vou te lembrar aonde eu for
Mas teu caminho é outro tempo que saberá,
Vontade de ficar mais tempo
E nunca mais querer te ver partir
O mundo te levou, eu deixo ir
(1995 - parceria com o Crica para a banda "Kin e os Serafins")
9 de dez. de 2008
Encontro
Bar Brahma, 19h15, terça-feira. Um convite pra beber com uma amiga, e descubro a possibilidade de um ícone. Não que eu seja uma fã propriamente dita, mas confesso que a curiosidade sempre me fez desejar assistir a um de seus shows. Um showman, um crooner brilhante, um ícone: palavra que se encaixa perfeitamente àquele a que vou assistir esta noite.
Enquanto espero minha amiga, o pianista toca Beatles, uma escolha fantasticamente apropriada, já que foi essa amiga - fã incondicional dos meninos de Liverpool - quem me apresentou aos ingleses nos idos dos 80.
Ansiedade. Eu costumava brincar que não podia morrer sem assistir a um show do Cauby Peixoto. Podem dizer o que quiserem, que é brega, que está ultrapassado, que sua peruca e seu terno de strass vermelho são ridículos. Tudo se transforma em pó quando o niteroiense (adjetivo horrível!) abre a boca e solta sua voz de timbre grave e aveludado.
Eu ficava imaginando “onde esse homem canta? Provavelmente no Rio...” Cheguei a imaginar um programa de fim-de-semana, avião, hotel, show no Canecão, hotel, avião... mas não foi possível. O tempo passou e hoje estou aqui, à espera. É estranho pensar que planejei este encontro em dois diferentes momentos de minha vida e não deu certo... Sozinha, espero pelo ídolo. Não importa. Talvez esse deva ser um instante só meu mesmo, meu e do Cauby, sem fotos, sem registros, sem testemunhas. Apenas um antigo desejo que insistiu em não ir embora.
Silêncio no piano, palmas. Ele toma o espetáculo e eu me calo para ouvi-lo.
(texto antigo... ando arrumando gavetas...)
Enquanto espero minha amiga, o pianista toca Beatles, uma escolha fantasticamente apropriada, já que foi essa amiga - fã incondicional dos meninos de Liverpool - quem me apresentou aos ingleses nos idos dos 80.
Ansiedade. Eu costumava brincar que não podia morrer sem assistir a um show do Cauby Peixoto. Podem dizer o que quiserem, que é brega, que está ultrapassado, que sua peruca e seu terno de strass vermelho são ridículos. Tudo se transforma em pó quando o niteroiense (adjetivo horrível!) abre a boca e solta sua voz de timbre grave e aveludado.
Eu ficava imaginando “onde esse homem canta? Provavelmente no Rio...” Cheguei a imaginar um programa de fim-de-semana, avião, hotel, show no Canecão, hotel, avião... mas não foi possível. O tempo passou e hoje estou aqui, à espera. É estranho pensar que planejei este encontro em dois diferentes momentos de minha vida e não deu certo... Sozinha, espero pelo ídolo. Não importa. Talvez esse deva ser um instante só meu mesmo, meu e do Cauby, sem fotos, sem registros, sem testemunhas. Apenas um antigo desejo que insistiu em não ir embora.
Silêncio no piano, palmas. Ele toma o espetáculo e eu me calo para ouvi-lo.
(texto antigo... ando arrumando gavetas...)
1 de dez. de 2008
Delonga
Às vezes sinto saudades da escrita. Acariciar palavras, embaralhá-las, sentir nas mãos sua textura. Noutras, sinto saudades do tempo, seu contar de horas caminhando lentas, delongadas uma após a outra. Há vezes, ainda, em que sinto saudades de uma areia viscosa e densa a tocar-me os pés e roçar-me o corpo, trazida grão a grão pelo vento quente. Saudades de ler Rimbaud e, boêmio, ter com ele. Versos de amor infinito a invadir a alma.
Emaranhada em novelos de palavras, me desfaço tempo, areia, saudade.
Emaranhada em novelos de palavras, me desfaço tempo, areia, saudade.
16 de out. de 2008
Dia do professor

Ontem foi o dia do professor e enviei um email para alguns professores queridos com um trecho lindíssimo retirado do "Aula", do Barthes, em que ele diz assim:
"Há uma idade em que se ensina o que se sabe; mas vem em seguida outra, em que se ensina o que não se sabe: isso se chama pesquisar. Vem talvez agora a idade de uma outra experiência, a de desaprender, de deixar trabalhar o remanejamento imprevisível que o esquecimento impõe à sedimentãção dos saberes, das culturas, das crenças que atravessamos. Essa experiência tem, creio eu, um nome ilustre e fora de moda, que ousarei tomar aqui sem complexo, na própria encruzilhada de sua etimologia: Sapientia: nenhum poder, um pouco de saber, um pouco de sabedoria, e o máximo de sabor possível".
Recebi várias respostas e uma, particularmente, me tocou muito, pois veio de uma mestra por quem tenho um enorme respeito. Ela terminou dizendo "você é uma professora". E eu achei isso um elogio tão bonito...
Tenho tentado realmente me tornar uma professora desde que deixei de ser bancária. É uma tarefa às vezes bastante difícil, principalmente porque eu não tenho mais 20 anos, mas eu adoro. É claro que há momentos em que você quer sumir do mapa, mas eles passam. No início desse ano, por exemplo, aceitei trabalhar numa escola que me pareceu bem legal, mas aos poucos foi se revelando um tormento. Diretor e orientador pedagógico passando em frente à sua sala de aula e perguntando umas 5 vezes por dia "tudo bem aí?" era pouco. Era só falar alguma coisa diferente com um aluno que eu já sabia que no dia seguinte ia "dar salinha". Às segundas-feiras eu tinha uma aula vaga e era batata! "Lina, compareça à minha sala, por favor... O aluno fulano de tal disse que você deu uma nota baixa pra ele, podemos conversar?" E lá se ia a aula vaga toda com as minhas justificativas. No primeiro semestre ainda deu pra levar, mas a volta das férias de julho tornou-se um martírio. Tudo o que eu falava ou fazia era motivo pra reunião. Em contrapartida, nos encontros com a coordenadora de Português tudo parecia normal: "Não dê atenção", "Mantenha a calma...", "Você está certa, é isso mesmo...", "Seu trabalho está ótimo...".
Um belo dia, eu chego pra ela e digo que vou pedir demissão. "Não faça isso, estamos no meio do ano, teremos problemas pra encontrar outra pessoa agora..." Eu digo que não tem problema, fico até que encontrem essa outra pessoa e ela responde "mas isso será péssimo para seu currículo". Marinheira de quase primeira viagem, decido ouvir, então, a voz da experiência e ficar. Dez dias depois, com a graça de Deus, eles me mandam embora.
Sem entender direito, me pergunto: "que diabos foi isso, se eu pedi demissão outro dia e eles não aceitaram?"
Melhor assim. Ética profissional a gente não encontra mesmo em qualquer material didático, por mais bonita que possa parecer a capa.
Agora que já se passou algum tempo, eu me lembro das palavras da coordenadora (de que meu trabalho era ótimo, isso ia sujar meu currículo, blá, blá, blá...) e, parafraseando uma amiga, pergunto: "e quem disse pra você que eu vou colocar essa escola horrorosa no meu currículo?"
6 de out. de 2008
Mais um verão
Gosto muito desse moço. E de suas canções, claro. Sempre gostei. Houve uma época em que não tinha dinheiro pra comprar seus discos e ficava correndo os sebos do centro da cidade atrás de um LP usado. Era um tempo de pouca grana, mas de muitos sonhos e eu sabia de cor todas as suas canções que me levavam pra um lugar distante, que eu nem sabia direito onde era, mas preenchia meu desejo de uma vida longe de São Paulo. Sábado fui assistir a seu show no Credicard Hall e pude relembrar desse tempo em que, entre outras coisas, eu tinha tempo pra cantar e até pra me arriscar a compor algumas canções que falavam de terra, mato e esperança de um dia sumir daqui. Eu tinha, então, 20 anos, todo o tempo do mundo e sabia quem eu era e o que eu queria. É claro que não saí de São Paulo, casei, separei, parei de cantar, me atolei no trabalho e me esqueci de tudo aquilo, inclusive de que eu gostava tanto desse moço. E de suas canções, claro.
Saí do show desse caboclo lindo (que agora usa óculos) sob chuva forte, com 2 CDs que eu ainda não tinha e que a Juju me deu, e determinada a não passar mais um verão sem me lembrar de todas essas coisas de que, de verdade, tanto gosto.
Essa canção (que na gravação original tem a belíssima 2ª voz de Alzira Espíndola) ele não cantou, mas eu adoro.
Mais um verão
Já lá se vai a sumir
Por entre os dedos da minha mão
E nada guardei pra mim
E a geração
Que a tudo fez consumir
Volta a temer profecias
De astros em conjunção
Será que chegou o fim?
Por moedas de ouro e prata
Quanta gente ainda se mata, ai, ai
Eta velho mundo louco
Quer se destruir
Aconteça pois assim
Mais um verão
E só me resta fingir
Ir ao castelo da ilusão
Sonhando ser Aladim
Poder então
Por tudo me repartir
Ser como as folhas de outono
Num vento sem direção
Dormir em qualquer jardim
Aflição nem vou mais sentir
Se o segredo é se divertir, ai, ai
Eta velho mundo louco
Não quer mais sorrir
Entristeça, pois, enfim
Mais um verão
Já lá se vai a sumir
Por entre os dedos da minha mão
E nada guardei pra mim
(Mais um verão - Almir Sater e Paulo Simões)
23 de set. de 2008
Não adianta vir com guaraná

E., a senhora gordinha que limpa a casa todas as 2as feiras, é a maior chocólatra que conheço. Não! O aposto (leia-se apôsto, com “o” fechado, aquele das aulas de português, lembra?) que melhor apresentaria E. aos poucos leitores que sobreviveram à longa ausência desta blogueira não é esse. É preciso começar de novo.
E., a maior chocólatra que conheço, é uma senhora gordinha que limpa a casa todas as 2as feiras. Eu também adoro chocolate e com a maioria das pessoas que conheço não é diferente, afinal, quem não adora chocolate? Agora mesmo, estou a bordo de um Hersheys meio amargo, não aquele delicioso com um leve toque de laranja, mas o meio amargo básico, escuro e amarguinho como qualquer outro de sua categoria.
Mas eu falava de E., a gordinha chocólatra, que às 2as feiras, religiosamente, limpa a casa. Pois bem. E. tem 40 anos, 3 filhos adultos, marido, casa pra cuidar, cachorro – Boris – com quem passeia à noite “lá em Ferraz”, referência ao município de Ferraz de Vasconcelos onde mora, mãe e pai que vivem numa casa construída no mesmo terreno. Toda 2a, sai de casa às 4 da manhã, pega ônibus, trem, metrô e ônibus de novo para – religiosamente – limpar a minha casa. Pelo trabalho de limpar muito bem a minha casa – e as outras, aonde vai - religiosamente - às 3as, 4as, 5as, 6as e sábados, E. recebe R$50,00 e, não!, ela não tem nenhum dia vago!
Mas estou aqui pra falar de sua chocolatrice e não de seu trabalho. Posso afirmar que E. é chocólatra por diversas razões. Certa vez, trouxemos um chocolate de Campos do Jordão pra Manu, sobrinha da Junia. Ele ficou uns dias na geladeira, pois estava muito calor e, numa 2ª feira, desapareceu misteriosamente da geladeira. Noutra ocasião, a Yanaí trouxe uns pacotinhos de um chocolate feito com puro cacau lá da Bahia e, coincidentemente numa 2ª feira, um deles desapareceu misteriosamente da geladeira. Isso aconteceu também com os suíços, os de São Lourenço, os de Caxambu, os da Argentina. Já aqueles de canela, figo e outros sabores irreconhecíveis que sobram na caixa de bombons “Garoto” ficam a vida toda lá, intocados....
Ontem, 2ª feira, eu estava batendo um papo com E. e ela me mostrou umas bolinhas que estão aparecendo em todo o seu corpo. Desesperada, confessou:
-- O médico me disse que é do chocolate, vou ter de ficar 2 meses sem comer, pra ver se desaparece...
Aí aproveitou e contou tudo. Que no trem, os Hersheys (os grandes) são vendidos a R$2,00 e que não dá pra resistir. Ela compra um todo dia e come inteirinho até chegar à estação de Ferraz e quando não tem muito dinheiro compra pelo menos um pedaço.
-- Hein? Um pedaço?
-- É, custa R$0,25 o quadradinho, eu não passo vontade, não!
Se esse Hersheys meio amargo que eu estou comendo neste exato momento custou R$4,00 no supermercado, que compra por atacado, direto da fábrica, como é que pode custar a metade disso no trem???? E que história é essa de comprar um quadradinho a R$0,25 só pra não passar vontade? Fala sério, quem inventou isso???!!!!!
Definitivamente, é muito difícil deixar de ser a chocólatra gordinha num país como esse...
25 de ago. de 2008
Pitanga
(...) Nunca ninguém soube. Não me arrependo: ladrão de rosas e de pitangas tem 100 anos de perdão. As pitangas, por exemplo, são elas mesmas que pedem para ser colhidas, em vez de amadurecer e morrer no galho, virgens.LISPECTOR, Clarice. Cem anos de perdão. In: Felicidade Clandestina.Rio de Janeiro: ROCCO, 1998.
29 de jul. de 2008
Os russos do avião
No vôo de ida, havia um moço russo sentado do meu lado. Quer dizer, eu acho que ele era russo porque falava uma língua muito estranha que resolvi que era parecida com o som do russo. Eu tive de pedir "licença" duas vezes pra ele: uma quando cheguei e outra quando precisei pegar um livro na minha bolsa que estava no compartimento de bagagens. Da primeira vez, como o vôo ia pra Argentina e ele tinha uma super cara de gringo, mandei um "con permiso" básico. Ele levantou e praguejou alguma coisa com um senhor que estava atrás dele. Imediatamente, um cara que estava na fileira da frente retrucou alguma coisa também em russo e os três engataram uma conversa que devia ser muito engraçada, cheia de R's e CH's e risadas. Aí eu pensei "por que diabos, se os 3 estão juntos, sentaram um atrás do outro na fileira do corredor?"
Assim que o avião decolou, eu percebi que havia deixado meu livro na bolsa e teria de incomodar o gringo de novo, mas ele já roncava. O russo mais velho estava no banco de trás e lia o "El Clarín". O da frente parecia ser mais novo e também roncava. Alguns minutos depois, começaram a servir comidinhas e a "azafata" chegou pra ele e perguntou em inglês "chicken or pasta?" Imediatamente ele olhou pro russo da retaguarda e falou qualquer coisa ininteligível que, traduzida, devia soar como "que aeromoça gostosa" porque o russo da frente começou a rir, depois o outro e por fim ele mesmo caiu na gargalhada. A pobre ficou ali com aquela carinha de kolynos esperando uma resposta e ele rindo. Eu já estava irritadíssima, tentando entender por que os caras riam tanto, quando ele, delicadamente, apontou pro frango. A moça serviu e se mandou rapidamente.
Depois que comemos, eu resolvi pegar o meu livro e mandei um "excuseme" já me levantando, pra garantir que ele ia entender. Ele levantou e - É CLARO! - aproveitou pra iniciar a conversa engraçada mais uma vez com os outros dois, enquanto esperava que eu me sentasse. Eu peguei o Barthes que me aguardava na bolsa, "thankyou", virei pra Juju e, baixinho, mandei um "Skavuska!" Pronto! Daí em diante, a cada vez que um dos três falava alguma coisa, a gente rebatia com um "na Sibéria não tem nada disso!" Rimos pra caramba.
O que me incomoda é que até agora não sei por que eles estavam rindo tanto... Vai ver que o comercial da NET de lá tem uma musiquinha que diz "Em São Paulo não tem nada disso"... Vai saber...
Assim que o avião decolou, eu percebi que havia deixado meu livro na bolsa e teria de incomodar o gringo de novo, mas ele já roncava. O russo mais velho estava no banco de trás e lia o "El Clarín". O da frente parecia ser mais novo e também roncava. Alguns minutos depois, começaram a servir comidinhas e a "azafata" chegou pra ele e perguntou em inglês "chicken or pasta?" Imediatamente ele olhou pro russo da retaguarda e falou qualquer coisa ininteligível que, traduzida, devia soar como "que aeromoça gostosa" porque o russo da frente começou a rir, depois o outro e por fim ele mesmo caiu na gargalhada. A pobre ficou ali com aquela carinha de kolynos esperando uma resposta e ele rindo. Eu já estava irritadíssima, tentando entender por que os caras riam tanto, quando ele, delicadamente, apontou pro frango. A moça serviu e se mandou rapidamente.
Depois que comemos, eu resolvi pegar o meu livro e mandei um "excuseme" já me levantando, pra garantir que ele ia entender. Ele levantou e - É CLARO! - aproveitou pra iniciar a conversa engraçada mais uma vez com os outros dois, enquanto esperava que eu me sentasse. Eu peguei o Barthes que me aguardava na bolsa, "thankyou", virei pra Juju e, baixinho, mandei um "Skavuska!" Pronto! Daí em diante, a cada vez que um dos três falava alguma coisa, a gente rebatia com um "na Sibéria não tem nada disso!" Rimos pra caramba.
O que me incomoda é que até agora não sei por que eles estavam rindo tanto... Vai ver que o comercial da NET de lá tem uma musiquinha que diz "Em São Paulo não tem nada disso"... Vai saber...
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